Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer

Arquiteto

GENTE DE MINAS

Ao longo de uma vida bastante intensa meus amigos mineiros – inúmeros, mas inesquecíveis – se destacaram por seu companheirismo, correção e lealdade.

 

Foi muito enriquecedora a ligação que me foi possível estreitar com o ex-governador Aécio Neves e sua equipe tão competente, quando realizamos, com um entusiasmo fora do comum  (assegurado por sua liderança), a Cidade Administrativa destinada ao Governo do Estado de Minas Gerais.

 

Esses contatos me faziam recordar o clima de confiança com que Juscelino Kubitschek discutia comigo os projetos para Pampulha e, mais tarde, já presidente, me convocou para colaborar na construção da nova capital, tornada possível graças ao apoio de Israel Pinheiro. Lembro-me ainda dos serões que vivíamos na companhia de tantos saudosos colegas, nos inícios da realização do sonho maior de JK. Momentos que assinalavam a presença de um estadista possuído do maior dinamismo, mas capaz de fazer uma boa gestão de seu tempo para ver os amigos e, como outro homem qualquer, rir e brincar um pouco.

 

Foi a minha amizade com outro ilustre mineiro, o ministro Gustavo Capanema, que me levou, por caminhos um tanto intrincados, a Valadares, desejoso de realizar o cassino do Acaba Mundo, e deste último ao então prefeito JK. Aquele grande ministro me garantiu a possibilidade de conhecer gente da melhor qualidade ___ admirável como as montanhas de Minas: o poeta Carlos Drummond de Andrade, seu chefe de gabinete, e Rodrigo M. F. de Andrade, o criador e primeiro diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), hoje Instituto (IPHAN).

 

De Rodrigo, com quem iria viajar por Ouro Preto e outras magníficas cidades históricas, vem-me à memória uma espécie de lição de vida, que não canso de repassar aos jovens que me procuram e ao meu neto Carlos Oscar, hoje dedicado a projetos de incentivo e difusão da leitura:

 

´´ O importante é ler, informar-se, sobretudo do que ocorre a nossa volta, conhecer a língua, os escritores mais fundamentais. Ler os clássicos, desde Diogo do Couto, que escrevia sobre as incursões portuguesas na costa africana ___ tão desprotegida ___ até os grandes autores contemporâneos. “

 

Releio este texto e ponho-me a refletir, comovido, como esses amigos mineiros foram importantes para o meu crescimento profissional (sem eles a própria Brasília não teria a repercussão que alcançou) e sobretudo como pessoa. A eles devo o entusiasmo permanente pela leitura, um conhecimento mais amplo do meu país e de suas raízes culturais, um sentimento especial do mundo, a percepção mais profunda de uma identidade nacional.

 

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